terça-feira, 1 de setembro de 2009

Reflexões em rubro.

Após o gozo carnal me pus sentado no divã a beber. "Não precisa ficar se não quiser", disse -me com seu desdenhoso olhar a me fitar. Respondi que terminaria minha Vodka, eu não tinha pressa.

Ela ainda me fitava enquanto vestia-se e devia entreter-se pois cortou sua mão de modo inexplicável. E com inexplicável preocupação cuidei do corte, o que me tornava sóbrio. Então perguntei pelo meu copo, ela o segurava e, com melancólicos olhos, observava a bebida enrubescer.

-Pingou um pouco de sangue. Disse ela com sua terceira face, a que achei que não veria, a que provava sua, agora incontestável, humanidade, a da vergonha.

Em mais um momento inexplicável, induzido possivelmente pela pena, tomei o copo de sua mão e bebi-o.

-Por que fez isso? Perguntou novamente melancólica.

-Achei que te faria bem. Respondi sinceramente.

-Mesmo que o fizesse... Teria de beber todo meu sangue.

-Assim te mataria.

-E meu corpo serviria às minhocas como servira aos homens em vida. Ele me fitou com um olhar que não soube distinguir se o que via era sarcasmo ou tristeza.

Vesti-me e coloquei cem reais na cómoda, o dobro do combinado. Fui embora e voltei na semana seguinte para mais uma noite, dessa vez sem conversa. E nunca mais a vi.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Lixeiro

Seu nome era Marcos, mas quem o conhecia chamava-o de Lixeiro. Esse apelido veio do costume que tinha de catar latinhas que encontrava nos sacos de lixo. Ele as entregava em troca de dinheiro a um senhor que fazia reciclagem. Mas, um dia, o velho homem teve um enfarto e morreu, e lixeiro teve que procurar outro modo de ganhar seu dinheiro.

Já fazia uma semana que lixeiro não comia nem bebia nada, a não ser a água de um rio fétido que tinha do lado de seu barraco. Sua barriga roncava enquanto ele a alisava na tentativa frustrada de fazê-la parar de doer.

O garoto, sem saber o que fazer para conseguir comida, passou a pedir esmola em um sinal, que escolheu por achar que ali só passava gente “bem de vida”. Porém, logo no primeiro dia percebeu que tinha concorrência. Dois garotos, não muito mais velho de quatorze e quinze anos e outro da idade de Lixeiro, faziam malabarismo com pequenas bolas de meia em troca de algumas moedas.

Juquinha, o mais novo, virou amigo de Lixeiro e o ensinou a fazer malabarismo. Os quatro passaram a fazê-lo em duplas e a “plateia” de carros pareceu gostar da novidade, já que o dinheiro engordou.

Porém, os dois mais velhos não estavam satisfeitos com o que estavam ganhando, então, um dia qualquer, apareceram com revólveres e tentaram convencer Juquinha e Lixeiro a assaltar os carros no sinal.

Juquinha, por medo, não quis aceitar, porém Lixeiro o convenceu com a promessa de que, assim, poderiam comer o que quisessem.

Depois de combinarem toda a empreitada, os garotos passaram a assaltar, toda noite, um carro. Esperavam o sinal fechar e, os dois mais novos, se punham na frente do carro, fazendo malabarismo, para evitar que ultrapassassem o sinal, enquanto que os outros dois apontavam as armas e recolhiam o que podiam.

Passado algum tempo, Juquinha, livre de qualquer medo, deu a ideia de também roubarem os carros. Lixeiro não concordou com a ideia por achar que chamaria a atenção dos policiais. Os três garotos, sem conseguir pensar em nada se não no dinheiro que ganhariam com o carro, chamaram-no de covarde e o acusaram de “ dar para trás” enquanto combinavam como o roubo aconteceria.

Lixeiro sentiu-se sozinho como não sentia desde que os conheceu. Abandonou-os, voltou para seu velho barraco e para o desagradável ar, por culpa do rio, da favela onde morava.

Na semana seguinte,enquanto passava pelo jornaleiro, ele riu, apesar da fome, ao ver a foto de Juquinha acompanhado de policiais no jornal. E sentiu-se bem, ainda era livre.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Word, Wide night by Carol Ann Duffy

"Poema de Carol Ann Duffy e minha tradução do mesmo em homenagem à B. que amo muito."


Words, Wide Night by Carol Ann Duffy

"Somewhere on the other side of this wide night
and the distance between us, I am thinking of you.
The room is turning slowly away from the moon.

This is pleasurable. Or shall I cross that out and say
it is sad? In one of the tenses I singing
an impossible song of desire that you cannot hear.

La lala la. See? I close my eyes and imagine the dark hills I would have to cross
to reach you. For I am in love with you

and this is what it is like or what it is like in words."

Palavras, Longa Noite por Carol Ann Duffy

"Em algum lugar do outro lado dessa longa noite
e da distância entre nós, estou pensando em você.
O quarto está aos poucos se virando para longe da lua.

Isso é desculpável, ou devia eu atravessar isso e dizer
isso é triste? Houve tempo em que cantava
uma música impossível de desejo que você não pode ouvir.

La lala la. Vê? Eu fecho meus olhos e imagino as escuras colinas que teria de cruzar
para encontrar você. Para poder te amar.

e então assim é como isso é ou como isso é em palavras."

terça-feira, 28 de julho de 2009

Luana

" Outro texto pedido pela minha professora de Português, acabo de perceber que os que menos odeio são pedidos por ela. Por que será?"



Tinha acabado de fugir do enterro dos meus pais. Não suportava ver aquilo. Era como se estivesse assistindo à confirmação da perda das únicas pessoas que amava.

Eu estava correndo pelo cemitério e todos esses pensamentos fizeram meus olhos lacrimejarem tornando difícil de enxergar. Continuei a correr mesmo sem conseguir ver direito e acabei caindo no que temi ser um túmulo. Tentei me levantar mas senti uma dor horrível, quebrei meu tornozelo. Comecei a gritar por ajuda, mas ninguém pareceu escutar, então decidi esperar até que me encontrassem.

Se passaram algumas horas e ninguém apareceu. Estava começando a escurecer e eu a me desesperar quando ouvi uma voz melodiosa, porém abrupta, a perguntar: "Quem está aí?". Gritei por socorro e pedi que ela jogasse uma corda ou qualquer coisa para me ajudar a sair mas ela disse que não podia e então ela apareceu na minha frente.

Ela era linda, tinha cabelos pretos que pareciam sobras do lado de seu rosto branco e cintilante como a luz da lua, capaz até de iluminar o fosso onde estávamos. Mas tinha algo de errado com ela, ela era transparente.

Senti um pouco de medo mas não demonstrei. Conversamos um pouco e percebi que ela era solitária e triste. Senti pena de sua alma condenada a existir sozinha e decidi ficar com ela para sempre. Os dias passaram, ninguém me encontrou e minha pena se transformou em amor e eu morri sem água e pude existir para sempre ao lado de Luana, a fantasma.

sábado, 25 de julho de 2009

Outro dia.

Andava sozinho pela praia de madrugada enquanto fumava seu cigarro. Sentou-se num ponto qualquer da praia, onde era recebido pela brisa marinha, e tragou monótonamente. Soltou a fumaça e fitou-a desvanecer no ar enquanto pensava no que acabara de acontecer. Pensava e repensava em como aquilo poderia ter acontecido. Ele tentava encontrar qualquer motivo que a levasse a traí-lo e isso o torturava.
O maço que a pouco tinha comprado estava vazio e ele cheio de tudo. Estava cansado do trabalho e de seu chefe, puto com a piranha da sua esposa e ainda mais puto com o cigarro vagabundo que queimou rápido demais. Ao longe ouviu uma música, ela vinha de um bar que tinha ali perto, o que o levou a imaginar-se bêbado nos braços de uma mulher qualquer no mesmo estado.
Assim comemoraría a prorrogação de sua vida, porém lembrou-se de que era terça e que no dia seguinte ainda teria de trabalhar. Não importava que, nesse momento, não quizesse mais viver. Quando a depressão passasse ele iria querer e precisaria de dinheiro para isso.
Decidiu que não estragaria sua vida mas se deixou ficar mais um pouco ali, aproveitando a solidão. E enquanto assistia quarta-feira acordar recolheu os cacos de sua alma e foi pra casa dormir, de onde expulsou sua mulher. O dia sería longo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

João ama Maria

"Mais um da série "Péssimos poemas" novamente aí."

Ele se chamava João,
assim como tantos outros.
Ela se chamava Maria,
disso sabiam todos.

Ele a amava,
assim como tantos outros.
Ela sequer lhe gostava,
assim como todos.

Teve festa naquele fim de semana,
assim como em vários outros.
Maria foi convidada,
para alegria de todos.

João ficou sabendo,
assim como todos.
E assim mesmo convidou.
Para alegria de poucos.

A festa tinha comida, bebida e Maria,
constatou todos.
E João a vira
beijando outros.

-Ela é uma vadia.
triste afirmou
e consigo mesmo
ele concordou.

A bebida era servida
igual para todos.
Mas João a bebia
mais do que todos.

A visão era turva
e tudo era fosco.
E João cambaleava
com seu andar tosco.

No noticiário da manhã
falaram de João:
"Jovem é morto
bêbado como um porco."

Poema de: Edson.

sábado, 4 de julho de 2009

Visão de mim

"Isso foi pedido pela minha escola. Trabalho de português, ficou uma droga. Odeio todo e qualquer poema meu, mas está aí."

Eternamente com mais cinco quilos,
mesmo depois de perder sete.
Para uns alto demais
para outros baixo demais.

Também sou branco,
ou será índio?
Tem quem diga japonês,
mas prefiro preto.

Tenho quinze anos,
na escola.
Vinte e um
na internet.
E dezoito,
quando saio.

Sou culto,
lindo,
forte,
pegador...
e um ótimo mentiroso.

Sou agnóstico
por simples preguiça ideológica
e me auto-afirmo me ofendendo
na esperança de que me elogiem.