sexta-feira, 11 de junho de 2010

Meu primeiro soneto

O canto no vácuo não ecoa
Mas, o músico louco é surdo
Indiferente é pra ele o vácuo do mundo,
pois no mundo do surdo todo canto é mudo.

O louco cego, não surdo,
não vê motivo pro canto
e pergunta ao louco surdo, não cego,
o motivo disso tudo.

Mas, se canto no vácuo não ecoa,
pergunta no vácuo não se escuta.
Então que se foda o surdo.

-Que se foda o caralho!
Canto porque quero e posso.
Que se foda o Vácuo!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Da janela aberta ao nada.

Já não adianta repensar os motivos, ele dizia a si mesmo. Mas, num fluxo impossível de controlar, o filme rolava em sua mente, as vezes na versão crua e outras vezes editado, onde ele mudava suas ações enquanto seu sub-consciente, como num cruel jogo, criava tragédias ainda maiores.
Da janela aberta o vento soprou como que para lembrá-lo de sua decisão, ou da decisão que deveria tomar. A grade de segurança já estava aberta e, se ele ainda pensava em pular, teria de fazê-lo agora, antes que seus pais chegassem e o impedissem.
Pular, não pular, pular, não pular... A questão era tão constante quanto o tic-tac do relógio ao lado da ansiosa janela.
-Pular! ele decidiu e logo firmou o primeiro pé na janela. -Pular! quase gritou em incentivo e quase todo seu corpo se curvava para fora. Olhou para baixo obstinado, mas sentiu-se tonto.
Agora procurava por motivos para não pular, em busca de qualquer apoio ou dever. Nada encontrou. Pensou então no que o aconteceria caso pulasse e, então, se assustou e novamente tonteou. Não havia luz, não havia forma, nem som. Logo reparou também não haver "eu", pois não havia consciência que lembrasse disso e que cada pedaço desse não-existir era perpétuo.
Desceu torto da escada e escondeu cada vestígio da pior idéia que já teve. Deitou-se na cama e sentiu-se desamparado, enquanto sentia que nunca mais suportaria o escuro, nunca mais teria uma só noite de bom sono e que nunca mais seria livre.

domingo, 11 de abril de 2010

Válvula de Escape.

Tinha acabado de escurecer e o movimento no botequim era pouco, quando um homem, que pelo farrapo que vestia e o mau cheiro que exalava só podia ser um mendigo, sentou no enferrujado banco de aço do balcão.
-Traz um veneno!-ordenou com a voz mole e um tanto nasal de quem andou entornando. O homem do outro lado do balcão virou-lhe a cara enquanto limpava, com demasiada atenção, um copinho.
O mendigo, entendendo o que estava acontecendo, pegou algumas notas amassadas e as colocou no balcão de modo violento. Sem olhar o miserável nos olhos, trouxe-lhe a bebida e continuou trazendo, sempre mudo, enquanto o mendigo pegava as notas e as batia no balcão.
Pouco tempo depois, o pobre bêbado lamentava, em alto e bom som, como se falasse diretamente à alguém.
-Há algo errado nessa bebida. Não estou ficando torpe o suficiente para parar de me envergonhar por estar fazendo toda essa merda de gritaria.
Dos poucos que o viam e ouviam, tinha aqueles que cochichavam e riam dele, que enquanto se lamentava, tropeçava no chão sem obstáculos, e aqueles que o olhavam com desprezo.

***
Já era madrugada e o pobre miserável acordou sozinho na rua deserta do botequim, que estava fechado. Sentiu o asfalto úmido e gelado tocar seus pés descalços e percebeu que lhe tinham levado os sapatos e o pouco dinheiro que havia sobrado. Levantou-se. Com uma garrafa vazia na mão, náuseas e uma cabeça cheia e dolorida seguiu pela rua deserta e escura. 

terça-feira, 2 de março de 2010

Apatia

Embebido em toda sua antipatia,
apático à tudo
e com ar de melancolia
passa seus dias

Com perceptível tédio me traga
e como tendo repulsa expulsa-me
em um leve sopro

Alívio
mas logo
desespero

Percebe-se então ilhado
no cume de toda sua antipatia
isolado, arrasado e mal tratado
reencontra simpatia

Girassóis

Deveria ser fácil perceber que iria embora, ao menos se eu prestasse atenção. Isso seria óbvio para mim toda vez em que, gentilmente, não dizia me amar. Mas, ainda assim, eu seria incapaz de evitá-lo. Se até os girassóis na nossa janela te seguiam, que chances teria eu?
Acho que nunca ouve tantas luas cheias num mês, as noites eram sempre a continuação do dia. Acho também que nunca ninguém ficou tão desolado em deixar uma casa como eu. Ah! Nossa casa. Nunca mais ela foi a mesma depois que a abandonamos. Não há mais aquele cheiro de lavanda, esse foi trocado pelo ar fúnebre dos cravos, que se instalaram ali vindos de não sei onde, e sua confortável meia-luz se parece agora com simples trevas. Mas os girassóis ainda estão lá, inanimados. Fitando a porta por onde você costumava entrar, junto à luz.
Mas, sabe, eu ainda guardo a felicidade desses tempos e, até mesmo a visto. Como quando, numa tarde fria e nublada, observei gotas de orvalho em minha laranjeira enquanto usava o casaco que um dia me emprestou e eu nunca devolvi.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Guardar e Relembrar

Será impossível descrever essa sensação quando tudo estiver acabado,quando eu não mais puder ler suas poesias, quando eu não mais puder ouvi-lo dizer que fui sua inspiração, estarei ocupado demais chorando sozinho. Então, descreverei agora para que eu possa guardá-la e relembrá-la sempre.
É algo como estar seco após horas de tempestade, é como ter o que comer após anos à míngua, é como atravessar o Atlântico submerso na água e então, finalmente, poder respirar.
Mas, não irá saber disso tão cedo. Primeiro irei expor toda a surpresa e o encantamento de se ter todos os desejos realizados, de te ter, à estranhos e, então, quando tiver desistido de mim, te entregarei esse texto escrito em folha de caderno e lágrimas de encantamento.

"...não te assusta? Se quiser parar por aqui vou embora só, guardando os bons momentos."

Parem.

Por favor, parem. Parem de aparecer com esses olhares, essas palavras. Não sei lidar com nada disso, não sei quando devo tocar ou ser tocado, não sei quando devo me abster de tudo e isolar-me e sei, muito menos, quando devo tentar dizer algo como o que dizem naturalmente à mim. Só sei que não sei nada de nenhum de vocês então, parem.