terça-feira, 5 de outubro de 2010

Augusto dos Anjos

Soneto - I - A meu pai doente

Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu pai?! Que mão sombria,
indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!

Soneto - II - A meu pai morto

Madrugada de Treze de Janeiro
Rezo, sonhando, o ofício da agonia
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse a minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

Soneto - III

Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que meus lábios osculam
Microorganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

eufemismo, sarcasmo e outros meios de Mentir

A vida é justa,
o que é uma pena pra inúmeros.
O céu é sempre azul,
os dias frescos
e a solidão uma opção.
Angústia é doença
e como toda doença curável
com comprimidos pequenos,
fáceis de engolir,
e rápidos como lemos versos rimados.
O amor é uma massa
colorida,
maleável ...
Facilmente encontrado em pequenas caixas
com formato de coração,
com cheiro de rosa ...
sem espinho algum.
A vida é sempre bela,
os mendigos sorridentes,
os moribundos crentes,
os versos rimados
e, acima de tudo,
a tristeza passageira.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Quero

Quero a sorte de ser cego,
surdo e estúpido
e então não perceber o que há ao meu redor
que me cerca,
aprisiona,
domina,
encurrala e
e me torna imundo.

Quero ser fantasma,
fumaça,
impalpável e invulnerável
Pra tudo e todo mundo

sábado, 7 de agosto de 2010

Aparição

...

As vezes, numa fração de segundos, eu a vejo
sentada na antiga cadeira que levaram
e é nessa fração de segundos
que todo esse meu receio estúpido desaparece.
Mas nos segundos seguintes
a miragem some
e o cômodo torna-se deserto
inóspito e incômodo.

Inútil, vazio e sinistro
como morrer.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Meu primeiro soneto

O canto no vácuo não ecoa
Mas, o músico louco é surdo
Indiferente é pra ele o vácuo do mundo,
pois no mundo do surdo todo canto é mudo.

O louco cego, não surdo,
não vê motivo pro canto
e pergunta ao louco surdo, não cego,
o motivo disso tudo.

Mas, se canto no vácuo não ecoa,
pergunta no vácuo não se escuta.
Então que se foda o surdo.

-Que se foda o caralho!
Canto porque quero e posso.
Que se foda o Vácuo!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Da janela aberta ao nada.

Já não adianta repensar os motivos, ele dizia a si mesmo. Mas, num fluxo impossível de controlar, o filme rolava em sua mente, as vezes na versão crua e outras vezes editado, onde ele mudava suas ações enquanto seu sub-consciente, como num cruel jogo, criava tragédias ainda maiores.
Da janela aberta o vento soprou como que para lembrá-lo de sua decisão, ou da decisão que deveria tomar. A grade de segurança já estava aberta e, se ele ainda pensava em pular, teria de fazê-lo agora, antes que seus pais chegassem e o impedissem.
Pular, não pular, pular, não pular... A questão era tão constante quanto o tic-tac do relógio ao lado da ansiosa janela.
-Pular! ele decidiu e logo firmou o primeiro pé na janela. -Pular! quase gritou em incentivo e quase todo seu corpo se curvava para fora. Olhou para baixo obstinado, mas sentiu-se tonto.
Agora procurava por motivos para não pular, em busca de qualquer apoio ou dever. Nada encontrou. Pensou então no que o aconteceria caso pulasse e, então, se assustou e novamente tonteou. Não havia luz, não havia forma, nem som. Logo reparou também não haver "eu", pois não havia consciência que lembrasse disso e que cada pedaço desse não-existir era perpétuo.
Desceu torto da escada e escondeu cada vestígio da pior idéia que já teve. Deitou-se na cama e sentiu-se desamparado, enquanto sentia que nunca mais suportaria o escuro, nunca mais teria uma só noite de bom sono e que nunca mais seria livre.

domingo, 11 de abril de 2010

Válvula de Escape.

Tinha acabado de escurecer e o movimento no botequim era pouco, quando um homem, que pelo farrapo que vestia e o mau cheiro que exalava só podia ser um mendigo, sentou no enferrujado banco de aço do balcão.
-Traz um veneno!-ordenou com a voz mole e um tanto nasal de quem andou entornando. O homem do outro lado do balcão virou-lhe a cara enquanto limpava, com demasiada atenção, um copinho.
O mendigo, entendendo o que estava acontecendo, pegou algumas notas amassadas e as colocou no balcão de modo violento. Sem olhar o miserável nos olhos, trouxe-lhe a bebida e continuou trazendo, sempre mudo, enquanto o mendigo pegava as notas e as batia no balcão.
Pouco tempo depois, o pobre bêbado lamentava, em alto e bom som, como se falasse diretamente à alguém.
-Há algo errado nessa bebida. Não estou ficando torpe o suficiente para parar de me envergonhar por estar fazendo toda essa merda de gritaria.
Dos poucos que o viam e ouviam, tinha aqueles que cochichavam e riam dele, que enquanto se lamentava, tropeçava no chão sem obstáculos, e aqueles que o olhavam com desprezo.

***
Já era madrugada e o pobre miserável acordou sozinho na rua deserta do botequim, que estava fechado. Sentiu o asfalto úmido e gelado tocar seus pés descalços e percebeu que lhe tinham levado os sapatos e o pouco dinheiro que havia sobrado. Levantou-se. Com uma garrafa vazia na mão, náuseas e uma cabeça cheia e dolorida seguiu pela rua deserta e escura.