O ponteiro cai com o peso dos séculos
o mesmo peso que sinto em meus olhos
que, ainda assim, se mantém abertos
Não há um só objeto
em meu escuro quarto deserto
capaz de prender-me a atenção
Assim, então, ficamos eu e meu eu-lírico
vagando como sombras
no dia que se esvai lentamente
pisando nos cacos de vidro no chão da minha mente.
Até que os séculos vençam,
o dia morra,
outro nasça sem remorso
ou respeito algum
e eu acorde
em algum quarto ensolarado
parecido com o meu.
Sem lembranças oníricas
de Morfeu nenhum.
Pseudoblog com alguns escritos, a maioria sem nexo algum. Apenas vontade de mostrar de modo quase anônimo o que escrevo.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Na casca de um perdido qualquer.
Era um peso borbulhante na boca do estômago e um peso agudo cravado no crânio e como se não soubesse o que fazer para vencer a gravidade e extinguir a dor, tudo o que fez foi manter-se deitado na cama.
Uma relação estranha a desses dois, ou nem tanto? talvez todas as relações sejam exames metódicos do Amor Imponderável, feitas exclusivamente para inflar nossos egos e evitar que subamos uma passarela qualquer, acima de uma via movimentada qualquer e pulemos sujando carros, asfalto e almas de cascas passantes.
Uma relação estranha a desses dois, ou nem tanto? talvez todas as relações sejam exames metódicos do Amor Imponderável, feitas exclusivamente para inflar nossos egos e evitar que subamos uma passarela qualquer, acima de uma via movimentada qualquer e pulemos sujando carros, asfalto e almas de cascas passantes.
***
Era a espera de um telefonema, ensaiado exatas trinta e sete vezes para parecer espontâneo, convidando-o para sair e beber, o que ficava subentendido. E receber os resultados do exame, o que também ficava subentendido.
Era a espera, o desistir de esperar e então voltar correndo e tremendo de pura excitação e um pouco de nervosismo a tempo de atender o telefonema e passar a ligação para seu verdadeiro dono. Daí, então, ele verdadeiramente desistiu. Na não-ligação disseram que o exame deu negativo, não havia nenhum Imponderável, mas o Crânio Cravado precisava de tratamento urgente.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Augusto dos Anjos
Soneto - I - A meu pai doente
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu pai?! Que mão sombria,
indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
Soneto - II - A meu pai morto
Madrugada de Treze de Janeiro
Rezo, sonhando, o ofício da agonia
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse a minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Soneto - III
Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que meus lábios osculam
Microorganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu pai?! Que mão sombria,
indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
Soneto - II - A meu pai morto
Madrugada de Treze de Janeiro
Rezo, sonhando, o ofício da agonia
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse a minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Soneto - III
Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que meus lábios osculam
Microorganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
eufemismo, sarcasmo e outros meios de Mentir
A vida é justa,
o que é uma pena pra inúmeros.
O céu é sempre azul,
os dias frescos
e a solidão uma opção.
Angústia é doença
colorida,
maleável ...
Facilmente encontrado em pequenas caixas
com formato de coração,
com cheiro de rosa ...
sem espinho algum.
A vida é sempre bela,
os mendigos sorridentes,
os moribundos crentes,
os versos rimados
e, acima de tudo,
a tristeza passageira.
o que é uma pena pra inúmeros.
O céu é sempre azul,
os dias frescos
e a solidão uma opção.
Angústia é doença
e como toda doença curável
com comprimidos pequenos,
fáceis de engolir,
e rápidos como lemos versos rimados.
O amor é uma massacolorida,
maleável ...
Facilmente encontrado em pequenas caixas
com formato de coração,
com cheiro de rosa ...
sem espinho algum.
A vida é sempre bela,
os mendigos sorridentes,
os moribundos crentes,
os versos rimados
e, acima de tudo,
a tristeza passageira.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Quero
Quero a sorte de ser cego,
surdo e estúpido
e então não perceber o que há ao meu redor
que me cerca,
aprisiona,
domina,
encurrala e
e me torna imundo.
Quero ser fantasma,
fumaça,
impalpável e invulnerável
Pra tudo e todo mundo
surdo e estúpido
e então não perceber o que há ao meu redor
que me cerca,
aprisiona,
domina,
encurrala e
e me torna imundo.
Quero ser fantasma,
fumaça,
impalpável e invulnerável
Pra tudo e todo mundo
sábado, 7 de agosto de 2010
Aparição
...
As vezes, numa fração de segundos, eu a vejo
sentada na antiga cadeira que levaram
e é nessa fração de segundos
que todo esse meu receio estúpido desaparece.
Mas nos segundos seguintes
a miragem some
e o cômodo torna-se deserto
inóspito e incômodo.
Inútil, vazio e sinistro
como morrer.
As vezes, numa fração de segundos, eu a vejo
sentada na antiga cadeira que levaram
e é nessa fração de segundos
que todo esse meu receio estúpido desaparece.
Mas nos segundos seguintes
a miragem some
e o cômodo torna-se deserto
inóspito e incômodo.
Inútil, vazio e sinistro
como morrer.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Meu primeiro soneto
O canto no vácuo não ecoa
Mas, o músico louco é surdo
Indiferente é pra ele o vácuo do mundo,
pois no mundo do surdo todo canto é mudo.
O louco cego, não surdo,
não vê motivo pro canto
e pergunta ao louco surdo, não cego,
o motivo disso tudo.
Mas, se canto no vácuo não ecoa,
pergunta no vácuo não se escuta.
Então que se foda o surdo.
-Que se foda o caralho!
Canto porque quero e posso.
Que se foda o Vácuo!
Mas, o músico louco é surdo
Indiferente é pra ele o vácuo do mundo,
pois no mundo do surdo todo canto é mudo.
O louco cego, não surdo,
não vê motivo pro canto
e pergunta ao louco surdo, não cego,
o motivo disso tudo.
Mas, se canto no vácuo não ecoa,
pergunta no vácuo não se escuta.
Então que se foda o surdo.
-Que se foda o caralho!
Canto porque quero e posso.
Que se foda o Vácuo!
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