domingo, 3 de março de 2013

Pele devastada

A pela era terra
fértil e verde,
vulnerável e pulsante.
Ele era explorador,
alcançava cada curva,
dominava e nomeava.
A ditava!
Pois ela era dele.
Ativamente submissa
acatava cada imposição
como quem ouve uma sugestão
já que assim se agradava
tal como se enganava.
Fato sem importância
para ela: terra encontrada.
Terra nomeada!
Explorada,
mas útil em última instância.

Ele tem outro

O travesseiro extra ocupa o vácuo
deixado por aquele último.
Retardado desistiu de largar
o cigarro que fumava.
Nervosamente xingava e chorava
o homem que agora levantava.
E dizia não saber.
E dizia que o amava.
Machucado e abandonado não ligava
para outro que o curasse.
A carência morreria
sufocada em fumaça,
por travesseiros esmagada
e pelo relógio ignorada.
E esse cantava,
e tic-taqueava
promessa de amnésia.

domingo, 14 de outubro de 2012

Da Cegueira (auto imposta)

   Ele tateou no escuro do quarto pelo seu óculos perdido em algum lugar do criado-mudo. Achou-o e, ainda que o estivesse procurando, sobressaltou-se com o toque frio das lentes. Era um desses dias que considerava tal acessório terrível. Pegou o objeto do seu medo cuidando para que o manchasse com os dedos. Imprimindo, desta forma, no vidro - "Cristal!", diria o oculista - suas digitais. 
   Levantou-se da cama cego e sereno, ainda com ele nas mãos. Caminhou com cuidado pelo breu em direção do interruptor tropeçando nos próprios chinelos, trapos e móveis. Ao alcançá-lo, segurou o óculos frente ao rosto para baforejar as lentes, embaçando-as ainda mais. Somente quando o colocou na cara ligou a luz, desta forma não corria o risco de enxergar.
-Tem dias que eu prefiro ser cego. Dias em que ignorar o que há ao meu redor é necessário se pretendo manter certa sanidade mental.- Explicou a si mesmo.
   No dia seguinte ele ainda se encontrava no breu do dia anterior, mesmo depois de ligada a luz.

sábado, 15 de setembro de 2012

É Proibido Amar

Fumei um cigarro inteiro
num ímpeto estrangeiro
de mudar de vida.
Rasparia a cabeça
com toda certeza
de que minha imagem mudaria.
Começaria assim,
com o exterior de mim
que a mudança é assim mesmo:
de fora pra dentro.
Alguém aponta e ri
e você chora se escondendo.

Ai esse cigarro grudento!
E essa lágrima escorrendo...

Quem é esse cara
que me tira na marra
o prazer de lento ir morrendo?
Quem é esse garoto
que me esfrega no rosto
a culpa de eu ser tão novo?

Acendo outro cigarro
e já é o terceiro.
Olho o oráculo
nas costas do maço
e o sorriso vem ainda que torto.

D
E
R
R
A
M
E

Mas essa sorte não tenho.
Então o plano primeiro mantenho
e planejo meu futuro correndo:
atos insanos e repentinos,
amores unilaterais,
fodas casuais
e morte num hospício.


sábado, 11 de agosto de 2012

Do Real e da Descrença

Mil odes fizera ao sonhado mar!
de espumas brancas como nuvens
d`um céu claro de verão,
de ventos frescos e almas jovens,
como dita a estação.

E outras mil faria!
Se quisesse ficar e sonhar.
Mas do sonho estava cansado,
então, com pressa nada comedida,
já que o queria materializado;
planejou sua ida.

Tão logo quanto chegou
ele as avistou:
lindas e brancas gaivotas.
Todas negras,
todas mortas.

Mas haviam outras aves.
Vivas aves canibais!
De ares sinistros e graves
Rodeando as que não viviam mais.

O mar? Um imenso esgoto!
E o ar? Cheirava a morto!
E as almas? Tinham mofo!

Já o poeta, outrora jovem e valente,
tornou-se inevitavelmente
um decepcionado descrente.

sábado, 9 de junho de 2012

Sobre ontem à noite

Me olha torto de decepção.
Frio aperte-me a mão.
Saúda-me com educação.
E suma.

Encontre-me só e pare
longo como quem diz nada.
Sonha, então, que me mata!
E volta.

Agarra agora quem
te encara longe sem
saber que aqui há
quem sofra.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Árvore

   Havia uma árvore numa rua movimentada do centro da cidade que, de tão antiga, para mim parecia eterna. Eterna como o é Deus, sem início e sem fim. Talvez pareça estranho que alguém tenha uma ideia dessas na cabeça em tempos como este, onde tudo é irremediavelmente descartável, mas é exatamente por isso que este tipo de impressão nasce. Na era do ceticismo e da finitude sentimos necessidade de criar ídolos que sejam infinitos. Precisamos de algo que nos acenda a fé, algo que nos dê a certeza de que quando eu passar por ali, dentro do ônibus lotado, a verei como a vejo sempre: antiga como a terra e bela, muito bela.
   Em um dia excepcional para o Rio de Janeiro, conhecido pelo sol e pelo calor, choveu e fez frio. Não era uma chuva qualquer... Nunca o é. Não é mesmo? Que tipo de texto que se preze fala de acontecimentos banais? Não, não era mesmo uma chuva qualquer. Era uma dessas chuvas que não se vê desde o dilúvio. Alagou o centro, destruiu as favelas e afogou homens, mulheres, crianças, amantes e pessoas de bem.
    Chuva horrível e detestável. Deixou a cidade em ruínas, mas, ao contrário do que se possa pensar, não era o fim. A cidade se reconstruiu com a força daqueles que, no dia seguinte, acordariam cedo para buscar seu sustento. Desalagou-se o centro, reconstruiu-se as favelas e velou-se os mortos pela catástrofe.
    A árvore? Tá aí uma consequência da tempestade que não foi remediada. A árvore imortal, eterna e infinita tombara e as pessoas, que nada sabiam de sua singularidade, nada fizeram. As vezes, para me consolar, penso que mesmo se soubessem de algo nada fariam por nada poderem fazer. Confesso que não é muito reconfortante...