Para a morte não há empecilho.
não importa quantos parentes
vão chorar escandalosos
por esse incidente
natural e terrível.
Inanimada está e inanimada ficará.
o acaso,
infeliz e infantil
senhor de toda a existência
engoliu o indefinido
que a nós anima
e cuspiu o corpo
frio e oco
para ser velado
e devorado
pelos vermes.
e se você,
receptor desta risível expressão de desespero
ainda acredita no bom fim
pensado primeiro
prescreva à mim seus alucinógenos.
talvez assim eu consiga
a calma que me falta
e me escapa.
Pseudoblog com alguns escritos, a maioria sem nexo algum. Apenas vontade de mostrar de modo quase anônimo o que escrevo.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Pequenas explosões de cor caindo.
Levantou-se triste e com dor no corpo, em minha juventude, em minha juventude... disse pra si e então sentiu o mundo estagnar-se sob seus pés e quase caiu por culpa da inércia. Em minha juventude. O quê em minha juventude? e não podendo responder a pergunta sentiu que o sol diminuía no céu e o mundo tornava-se escuro e frio e a culpa era toda dele. Não, não. Besteira... mas por via das dúvidas arrastou-se até a janela. Arrastou-se porque era velho e seu corpo doía e até a janela porque queria abrí-la e ter certeza de que era besteira. Abriu-a e o sol, tão grande e cruel como sempre, queimou-lhe a visão e tudo o que viu foi pequenas explosões alegres de cor caindo que seguiam para onde quer que ele olhasse. Toda essa demonstração de alegria infundada sangrou-lhe em algum lugar úmido e asqueroso de seu ser e, um pouco consciente e um tanto quanto em transe, fechou a cortina e abriu-a novamente, mas só o suficiente para lançar um pouco de luz no quarto.
Arrastou-se sonolento pelo resto de sua pequena casa abrindo frestas nas cortinas das janelas no caminho e como a sonolência não parecia querer se dissipar pensou em fazer café, acordar pra vida. Acordar pra vida? Confuso olhou pra baixo e com grandes poderes oraculares adivinhou no padrão dos desenhos de seu piso o dia quente, melancólico e vazio que se arrastaria longo, pesado e lerdo como seus passos.
Assustado com sua visão mais uma vez arrastou-se, agora de volta ao quarto, fechando metódicamente as cortinas das janelas em seu caminho e deitou-se. Lutou imerso num desespero calmo e estranho contra qualquer pensamento que o impedisse de dormir até que, finalmente, o nada foi alcançado e ele dormiu, dormiu e dormiu.
Arrastou-se sonolento pelo resto de sua pequena casa abrindo frestas nas cortinas das janelas no caminho e como a sonolência não parecia querer se dissipar pensou em fazer café, acordar pra vida. Acordar pra vida? Confuso olhou pra baixo e com grandes poderes oraculares adivinhou no padrão dos desenhos de seu piso o dia quente, melancólico e vazio que se arrastaria longo, pesado e lerdo como seus passos.
Assustado com sua visão mais uma vez arrastou-se, agora de volta ao quarto, fechando metódicamente as cortinas das janelas em seu caminho e deitou-se. Lutou imerso num desespero calmo e estranho contra qualquer pensamento que o impedisse de dormir até que, finalmente, o nada foi alcançado e ele dormiu, dormiu e dormiu.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Um século a noite.
O ponteiro cai com o peso dos séculos
o mesmo peso que sinto em meus olhos
que, ainda assim, se mantém abertos
Não há um só objeto
em meu escuro quarto deserto
capaz de prender-me a atenção
Assim, então, ficamos eu e meu eu-lírico
vagando como sombras
no dia que se esvai lentamente
pisando nos cacos de vidro no chão da minha mente.
Até que os séculos vençam,
o dia morra,
outro nasça sem remorso
ou respeito algum
e eu acorde
em algum quarto ensolarado
parecido com o meu.
Sem lembranças oníricas
de Morfeu nenhum.
o mesmo peso que sinto em meus olhos
que, ainda assim, se mantém abertos
Não há um só objeto
em meu escuro quarto deserto
capaz de prender-me a atenção
Assim, então, ficamos eu e meu eu-lírico
vagando como sombras
no dia que se esvai lentamente
pisando nos cacos de vidro no chão da minha mente.
Até que os séculos vençam,
o dia morra,
outro nasça sem remorso
ou respeito algum
e eu acorde
em algum quarto ensolarado
parecido com o meu.
Sem lembranças oníricas
de Morfeu nenhum.
Na casca de um perdido qualquer.
Era um peso borbulhante na boca do estômago e um peso agudo cravado no crânio e como se não soubesse o que fazer para vencer a gravidade e extinguir a dor, tudo o que fez foi manter-se deitado na cama.
Uma relação estranha a desses dois, ou nem tanto? talvez todas as relações sejam exames metódicos do Amor Imponderável, feitas exclusivamente para inflar nossos egos e evitar que subamos uma passarela qualquer, acima de uma via movimentada qualquer e pulemos sujando carros, asfalto e almas de cascas passantes.
Uma relação estranha a desses dois, ou nem tanto? talvez todas as relações sejam exames metódicos do Amor Imponderável, feitas exclusivamente para inflar nossos egos e evitar que subamos uma passarela qualquer, acima de uma via movimentada qualquer e pulemos sujando carros, asfalto e almas de cascas passantes.
***
Era a espera de um telefonema, ensaiado exatas trinta e sete vezes para parecer espontâneo, convidando-o para sair e beber, o que ficava subentendido. E receber os resultados do exame, o que também ficava subentendido.
Era a espera, o desistir de esperar e então voltar correndo e tremendo de pura excitação e um pouco de nervosismo a tempo de atender o telefonema e passar a ligação para seu verdadeiro dono. Daí, então, ele verdadeiramente desistiu. Na não-ligação disseram que o exame deu negativo, não havia nenhum Imponderável, mas o Crânio Cravado precisava de tratamento urgente.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Augusto dos Anjos
Soneto - I - A meu pai doente
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu pai?! Que mão sombria,
indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
Soneto - II - A meu pai morto
Madrugada de Treze de Janeiro
Rezo, sonhando, o ofício da agonia
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse a minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Soneto - III
Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que meus lábios osculam
Microorganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu pai?! Que mão sombria,
indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
Soneto - II - A meu pai morto
Madrugada de Treze de Janeiro
Rezo, sonhando, o ofício da agonia
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse a minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Soneto - III
Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que meus lábios osculam
Microorganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
eufemismo, sarcasmo e outros meios de Mentir
A vida é justa,
o que é uma pena pra inúmeros.
O céu é sempre azul,
os dias frescos
e a solidão uma opção.
Angústia é doença
colorida,
maleável ...
Facilmente encontrado em pequenas caixas
com formato de coração,
com cheiro de rosa ...
sem espinho algum.
A vida é sempre bela,
os mendigos sorridentes,
os moribundos crentes,
os versos rimados
e, acima de tudo,
a tristeza passageira.
o que é uma pena pra inúmeros.
O céu é sempre azul,
os dias frescos
e a solidão uma opção.
Angústia é doença
e como toda doença curável
com comprimidos pequenos,
fáceis de engolir,
e rápidos como lemos versos rimados.
O amor é uma massacolorida,
maleável ...
Facilmente encontrado em pequenas caixas
com formato de coração,
com cheiro de rosa ...
sem espinho algum.
A vida é sempre bela,
os mendigos sorridentes,
os moribundos crentes,
os versos rimados
e, acima de tudo,
a tristeza passageira.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Quero
Quero a sorte de ser cego,
surdo e estúpido
e então não perceber o que há ao meu redor
que me cerca,
aprisiona,
domina,
encurrala e
e me torna imundo.
Quero ser fantasma,
fumaça,
impalpável e invulnerável
Pra tudo e todo mundo
surdo e estúpido
e então não perceber o que há ao meu redor
que me cerca,
aprisiona,
domina,
encurrala e
e me torna imundo.
Quero ser fantasma,
fumaça,
impalpável e invulnerável
Pra tudo e todo mundo
Assinar:
Postagens (Atom)