domingo, 3 de abril de 2011

Sobre o que morre.

Ele escreveu um poema
um desses que corre
como se corre a dor
de um escuro rubro
sangue que escorre
do pulso cortado
enquanto ele
lentamente
morre.

Escreveu,
quase morreu
e de toda dor que leu
riu, gargalhou e fez pouco.

Mas nunca esqueceu. Nunca.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Cardíaco (continuação de "Pequenas Explosões de Cor Caindo")

   Era o mesmo senhor que não via motivos para sair de casa e que, quando considerou essa possibilidade, queimou os olhos com a luz do sol. O mesmo que não abria a janela para evitar que qualquer tipo de alegria alheia, dessas sorrateiras, lhe invadisse a calma e lhe impusesse inveja. O mesmo que não mais levantava da cama por adivinhar o dia vazio e arrastado que teria. mas, um dia, sua cama o traiu e o expulsou. Deixando-o para sofrer de tédio e melancolia durante todo um longo dia.
   Por não ter mais o que fazer levantou-se e tão logo levantou seu estômago ordenou que comesse e, uma vez que acatava ordens da cama e não parecia ter desejos próprios, concordou. Fez café e queimou alguns pães que entregaram no último sábado, calando assim seu estômago. Mas havia ainda muitas criaturas inanimadas com seus desejos próprios à serem atendidos: o chão precisava ser varrido, a louça lavada, o radio ligado, os dentes escovados, o corpo banhando... e, cada vez que realizava um desejo, logo encontrava outro a ser realizado criando um ciclo tão perfeito quanto uma cobra mordendo seu próprio rabo.
   Descobriu-se confortável e quase feliz e logo espantou-se ao perceber que desejava realizar esses desejos. Era seguro.
   No dia seguinte realizou novamente o desejo da cama e levantou-se e quando levantou ouviu o sol lá fora tentando-o a abrir a porta, a sair. Então, abriu-a e fechou os olhos, com medo de tê-los queimados. Logo os abriu intactos e sentiu-se bem. Mas havia ainda um limite claro que mostrava a ele onde era seu lugar. Esse limite era demarcado por um tapete velho, do qual não lembrava ter comprado, que ligava os dois lados da porta. O limite entre seu mausoléu e o resto do mundo.
   Espantou-se ou sentiu medo? Talvez. Mas é certo que suspirou longa e pesadamente e que secou o suor imaginário da testa.
   Vendo-o tão esquisito e entendendo essa reação como sinal de medo, o mundo lá fora o desafiou a cruzar a fronteira. Como um desafio é questão de honra e honrados somos todos nós por direito animados, ele atravessou. Trôpego, com seu passo arrastado, mas atravessou. Fazendo, inclusive, uma brisa admirar-se e por isso acariciar-lhe o rosto.
   Era, após séculos naquela casa que cheirava à cravo e reclusão, o mundo lá fora com seu céu, que mesmo nublado era azul e com seu chão, que mesmo asfaltado era florido. E esse mesmo chão clamou por ser pisado e assim foi, com força e gosto, até que de tanto pisá-lo o velho chegou ao banco de um ponto de ônibus.
   Sentiu-se cansado e então sentou-se. Esse foi o primeiro desejo próprio ao qual consentiu e, talvez, tenha sido o início de todo o problema.
   Ao lado dele sentou-se uma senhora que à primeira vista pareceu-lhe ordinária com seu vestido florido desbotado e levemente puído, seu cabelo branco manchado e sua perna inchada e inquieta que balançava no ar denunciando sua baixa estatura. Mas, aconteceu dela virar para ele o rosto enrugado e pálido. Ele pensou em olhar para longe atrás dela, para que ela não percebesse que ele a encarava, mas, então, escutou seus olhos, os mais castanhos e tristes que já vira. Os mais singulares também, apesar de comuns, pensou. Eles sussurravam "me olhe", menos que sussurravam, como se não tivessem certeza de que queriam ser escutados. Ele os olhou, é claro. Mas, não por ser feliz em acatar ordens e sim por verdadeiramente sentir querer olhá-los.
   Logo o ex-recluso desejou falar, mas sua boca protestou e uma guerra interna de mais de cem anos ocorreu dentro dos segundos que levou para a boca obedecer-lhe e dizer à velha dos olhos castanhos, pernas inquietas e vestido florido um curto "oi". Desse "oi" nasceu outro "oi", desse, um "Tudo bem?" e logo eles estavam conversando por quase uma hora sobre o dia, suas vidas e o ônibus que não chegava. Toda ela parecia falar, os olhos ainda diziam "me olhe", a mão "me toque" e, quando o ônibus finalmente apareceu e ela levantou, sua face, não mais tão pálida, disse "me beije".
   Ele cumpriu todos esses pedidos e foi, novamente, por verdadeiramente querer e não por não ter vontade própria. Era assustador, nada seguro e incrivelmente bom.
   Ao voltar para casa percebeu que algo havia mudado. Os móveis, as roupas e tudo o mais que havia dentro de sua casa tinha mudado de opinião e não mais desejavam que ele agisse de modo que o levasse à sair, a viver o mundo lá fora. Eles tinham medo por ele, mas ele não os escutou e no outro dia saiu. No dia depois também saiu, e no outro após esse também. E continuou a sair todos os dias, dias esses que eram alegres, leves e cheios. Cheios de brisas, beijos e ônibus atrasados. Mas, nada é perfeito. E logo ele percebeu que esses dias eram também finitos, a cobra não queria se morder, preferia, ao invés, se arrastar obscura e insensivelmente para longe, bem longe, no ontem.
   A velha dos olhos castanhos não estava no banco de ônibus e ele sabia que nunca mais estaria. Sabia que nunca mais a veria e odiava ser um oráculo tão infalível. Sentiu dor, muita dor em seu peito. Uma dessas dores que só quem perdeu a esposa num acidente terrível pode ter sentido. A dor que sabia que sentiria se levantasse da cama naquela primeira vez que levantou, a dor que tudo em sua casa sabia que ele conheceria se continuasse à sair de casa, a dor que sentiu por ser estúpido o suficiente pra se deixar amar e, finalmente, a dor de um ataque no coração que o matou no ponto de ônibus e não o deixou nem mesmo depois de ser enterrado como indigente.
   Perdeu o mausoléu perfeito, onde passou grande parte de sua vida, para, depois de morto, ser jogado num valão qualquer.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Silêncio subjetivo.

Criou o vácuo e
alimentou-o até que não se ouvisse
nem a corrida dos carros,
nem as batidas dos passos,
nem eventuais gritos exclamados.

Fechou-se, fechou-se e fechou-se.
Até que o espaço ilimitado
o sufocasse!

Finalmente cansou-se
e tentou prender-se a algo que o puxasse,
fosse de volta
ou fosse pro outro lado.

Nada encontrou de alcançável.

Deixou-se então vagar pelo espaço,
desejando ser tragado
pela correnteza de um mar inescapável.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Se conheço ele? Conheço sim, por que?

   Quando criança ficou fascinado com a ideia de ser astronauta. Clichê, eu sei. Eu sei... droga! Eu disse que sei. Enfim... Queria ser astronauta. Acredito que esse fascínio começou na primeira vez que viu "Monty´s moon", um desenho animado antigo com recorrentes cenas de corridas malucas num plano único. Foi nessa época também que a maioria de seus desenhos, quase abstratos nos seus traços tortos, passaram a ter essa temática como mais comum e pouco depois como única .
   Um pouco mais velho e distante dos pensamentos infantis, o que tinha como grande aspiração na vida quase dissipou-se no fluxo de água fervente que é a adolescência. Mas, num dia que mesmo sendo singular era tão entediante como os outros, lhe perguntaram que profissão pretendia seguir. Assim, do nada. Sem nenhum aviso prévio. E, então, como se não tivesse o que mais responder disse: astronauta.
   Como assim "e aí"? Riram. Um deles que tinha a pele enferrujada e cheiro de queijo, fez uma piada com "mundo da lua", trocadilho infeliz. Se eu lembro? Acho que foi "deve ser por que você vive no mundo da lua". Avisei que era um trocadilho infe... Não acredito que você está rindo. Não, não. Você rindo? Nunca!
   Se ele tem namorada? Além dos pais, nunca criou laços com ninguém. Até mesmo o que com eles parecia uma ligação feita à algemas, tornou-se algo maleável e fácil de romper.
   Acho que seu grande amor era ele mesmo. Uma prova disso foi sua reação à piada do ruivo enferrujado e fedorento. O que fez? Ele furou o ruivo na mão com uma caneta e o chutou na canela, ele diz ter mirado o saco. Como assim "exagerado"? Imagina se tivessem feito pouco do único ser a quem você dá alguma atenção.Imagina! Pois digo que foi isso o que ele sentiu.
   O pior não foi tê-lo ofendido, mas ter feito isso com a verdade. Ele nunca gostou de ficar enraizado no real e sempre acabava flutuando para algum lugar que considerava melhor. Não que a realidade fosse violenta e crua com ele, ele nunca foi molestado, nem tem doenças crônicas, teve uma vida comum e sem histórias extraordinárias, mas acho que isso não era suficiente.
   E agora? Não entendi sua pergunta.
- Bom, você contou de quando ele era criança e de quando vocês se conheceram na adolescência.
- Não disse que nos conhecemos.
- Disse sim. Disse que se falaram.
- Disse? Desculpa então. É que menti, inventei tudo.
- Que seja... Termina a história. E aí..
   Depois de adulto...
-Vê se dá uma morte digna à ele.
   Depois de adulto ele viajou cada vez mais longe dentro de seu universo particular e fez isso com ajuda de drogas, óbvio. Manteve-se distante de qualquer contato social desnecessário, ou que ele considerasse desnecessário, e, graças à isso, nunca teve um emprego. Vive às custas dos pais idosos até hoje e está aqui  para se aventurar na favela atrás de mais drogas.
- E a morte digna?
- Morrerá sozinho, velho e chapado num beco mijado qualquer desses.
- Não! Seja humano e dê a ele uma morte que não seja insignificante e invisível.
- Que seja então.
   Ainda hoje, já chapado, ele se encontrará com o ruivo sardento e obeso, que agora é magro, sem sardas e tem cabelo grisalho. Eles se desentenderão e ele o matará enfiando a caneta primeiro no olho esquerdo e depois na garganta. Por culpa da forma que o matou ele será confundido com um serial killer que matou mais de cem homens e mulheres de meia idade da mesma forma e, depois de algum tempo, ao tentar fugir da polícia ele será baleado. Morrerá como um serial killer conhecido e odiado por todos. Fim.
- Mas, só pra deixar claro. Esse final só alegra à você. Ele não liga.
- Que seja. Mas, qual o nome.
- O meu?
- Não, o dele.
- João.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A diferença.

"Acordou, vendo sangue...Horrível! O osso
Frontal em fogo... Ia talvez morrer.
Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! Certamente não podia ser!"
(Augusto dos Anjos, Obsessão do sangue)

Bom é entrar no ônibus vazio e
receber um bom dia alegre do motorista
É sentar na janela e 
ver o que se parece com um quadro
de casas coloridas,
pessoas à vontade
e um sol preguiçoso.
É ficar levemente tonto
com o movimento do ônibus.
É por o fone de ouvido
e ouvir seu cantor favorito.
É encontrar um bom amigo
num ponto qualquer desse caminho.
É conversar quase em sussurros
sobre qualquer assunto.

Ruim é acordar em pé, sozinho, num ônibus lotado e ter de gritar ao motorista para parar porque você perdeu o ponto da escola.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Uma longa businada e um corpo no chão.

Para a morte não há empecilho.
não importa quantos parentes
vão chorar escandalosos
por esse incidente
natural e terrível.
Inanimada está e inanimada ficará.

o acaso,
infeliz e infantil
senhor de toda a existência
engoliu o indefinido
que a nós anima
e cuspiu o corpo
frio e oco
para ser velado
e devorado
pelos vermes.

e se você,
receptor desta risível expressão de desespero
ainda acredita no bom fim
pensado primeiro
prescreva à mim seus alucinógenos.
talvez assim eu consiga
a calma que me falta
e me escapa.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Pequenas explosões de cor caindo.

   Levantou-se triste e com dor no corpo, em minha juventude, em minha juventude... disse pra si e então sentiu o mundo estagnar-se sob seus pés e quase caiu por culpa da inércia. Em minha juventude. O quê em minha juventude? e não podendo responder a pergunta sentiu que o sol diminuía no céu e o mundo tornava-se escuro e frio e a culpa era toda dele. Não, não. Besteira... mas por via das dúvidas arrastou-se até a janela. Arrastou-se porque era velho e seu corpo doía e até a janela porque queria abrí-la e ter certeza de que era besteira. Abriu-a e o sol, tão grande e cruel como sempre, queimou-lhe a visão e tudo o que viu foi pequenas explosões alegres de cor caindo que seguiam para onde quer que ele olhasse. Toda essa demonstração de alegria infundada sangrou-lhe em algum lugar úmido e asqueroso de seu ser e, um pouco consciente e um tanto quanto em transe, fechou a cortina e abriu-a novamente, mas só o suficiente para lançar um pouco de luz no quarto.
   Arrastou-se sonolento pelo resto de sua pequena casa abrindo frestas nas cortinas das janelas no caminho e como a sonolência não parecia querer se dissipar pensou em fazer café, acordar pra vida. Acordar pra vida? Confuso olhou pra baixo e com grandes poderes oraculares adivinhou no padrão dos desenhos de seu piso o dia quente, melancólico e vazio que se arrastaria longo, pesado e lerdo como seus passos.
   Assustado com sua visão mais uma vez arrastou-se, agora de volta ao quarto, fechando metódicamente as cortinas das janelas em seu caminho e deitou-se. Lutou imerso num desespero calmo e estranho contra qualquer pensamento que o impedisse de dormir até que, finalmente, o nada foi alcançado e ele dormiu, dormiu e dormiu.