domingo, 14 de outubro de 2012

Da Cegueira (auto imposta)

   Ele tateou no escuro do quarto pelo seu óculos perdido em algum lugar do criado-mudo. Achou-o e, ainda que o estivesse procurando, sobressaltou-se com o toque frio das lentes. Era um desses dias que considerava tal acessório terrível. Pegou o objeto do seu medo cuidando para que o manchasse com os dedos. Imprimindo, desta forma, no vidro - "Cristal!", diria o oculista - suas digitais. 
   Levantou-se da cama cego e sereno, ainda com ele nas mãos. Caminhou com cuidado pelo breu em direção do interruptor tropeçando nos próprios chinelos, trapos e móveis. Ao alcançá-lo, segurou o óculos frente ao rosto para baforejar as lentes, embaçando-as ainda mais. Somente quando o colocou na cara ligou a luz, desta forma não corria o risco de enxergar.
-Tem dias que eu prefiro ser cego. Dias em que ignorar o que há ao meu redor é necessário se pretendo manter certa sanidade mental.- Explicou a si mesmo.
   No dia seguinte ele ainda se encontrava no breu do dia anterior, mesmo depois de ligada a luz.

sábado, 15 de setembro de 2012

É Proibido Amar

Fumei um cigarro inteiro
num ímpeto estrangeiro
de mudar de vida.
Rasparia a cabeça
com toda certeza
de que minha imagem mudaria.
Começaria assim,
com o exterior de mim
que a mudança é assim mesmo:
de fora pra dentro.
Alguém aponta e ri
e você chora se escondendo.

Ai esse cigarro grudento!
E essa lágrima escorrendo...

Quem é esse cara
que me tira na marra
o prazer de lento ir morrendo?
Quem é esse garoto
que me esfrega no rosto
a culpa de eu ser tão novo?

Acendo outro cigarro
e já é o terceiro.
Olho o oráculo
nas costas do maço
e o sorriso vem ainda que torto.

D
E
R
R
A
M
E

Mas essa sorte não tenho.
Então o plano primeiro mantenho
e planejo meu futuro correndo:
atos insanos e repentinos,
amores unilaterais,
fodas casuais
e morte num hospício.


sábado, 11 de agosto de 2012

Do Real e da Descrença

Mil odes fizera ao sonhado mar!
de espumas brancas como nuvens
d`um céu claro de verão,
de ventos frescos e almas jovens,
como dita a estação.

E outras mil faria!
Se quisesse ficar e sonhar.
Mas do sonho estava cansado,
então, com pressa nada comedida,
já que o queria materializado;
planejou sua ida.

Tão logo quanto chegou
ele as avistou:
lindas e brancas gaivotas.
Todas negras,
todas mortas.

Mas haviam outras aves.
Vivas aves canibais!
De ares sinistros e graves
Rodeando as que não viviam mais.

O mar? Um imenso esgoto!
E o ar? Cheirava a morto!
E as almas? Tinham mofo!

Já o poeta, outrora jovem e valente,
tornou-se inevitavelmente
um decepcionado descrente.

sábado, 9 de junho de 2012

Sobre ontem à noite

Me olha torto de decepção.
Frio aperte-me a mão.
Saúda-me com educação.
E suma.

Encontre-me só e pare
longo como quem diz nada.
Sonha, então, que me mata!
E volta.

Agarra agora quem
te encara longe sem
saber que aqui há
quem sofra.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Árvore

   Havia uma árvore numa rua movimentada do centro da cidade que, de tão antiga, para mim parecia eterna. Eterna como o é Deus, sem início e sem fim. Talvez pareça estranho que alguém tenha uma ideia dessas na cabeça em tempos como este, onde tudo é irremediavelmente descartável, mas é exatamente por isso que este tipo de impressão nasce. Na era do ceticismo e da finitude sentimos necessidade de criar ídolos que sejam infinitos. Precisamos de algo que nos acenda a fé, algo que nos dê a certeza de que quando eu passar por ali, dentro do ônibus lotado, a verei como a vejo sempre: antiga como a terra e bela, muito bela.
   Em um dia excepcional para o Rio de Janeiro, conhecido pelo sol e pelo calor, choveu e fez frio. Não era uma chuva qualquer... Nunca o é. Não é mesmo? Que tipo de texto que se preze fala de acontecimentos banais? Não, não era mesmo uma chuva qualquer. Era uma dessas chuvas que não se vê desde o dilúvio. Alagou o centro, destruiu as favelas e afogou homens, mulheres, crianças, amantes e pessoas de bem.
    Chuva horrível e detestável. Deixou a cidade em ruínas, mas, ao contrário do que se possa pensar, não era o fim. A cidade se reconstruiu com a força daqueles que, no dia seguinte, acordariam cedo para buscar seu sustento. Desalagou-se o centro, reconstruiu-se as favelas e velou-se os mortos pela catástrofe.
    A árvore? Tá aí uma consequência da tempestade que não foi remediada. A árvore imortal, eterna e infinita tombara e as pessoas, que nada sabiam de sua singularidade, nada fizeram. As vezes, para me consolar, penso que mesmo se soubessem de algo nada fariam por nada poderem fazer. Confesso que não é muito reconfortante...

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Indiferente

   Estava obcecado. Repassava cada pequeno detalhe várias e várias vezes. Fora levado até ali pela raiva, pela mágoa, pelo desespero e pelo amor; maior culpado de todos e lembrava-se da noite, há muito tempo atrás, em que a pediu em casamento. Lembrava que naquele momento o que mais lhe prendia a atenção era a hesitação dela. Seria isso uma espécie de sinal? Deveria ele ter desistido ali, levantado da posição habitual dos que propõem casamento, limpado o joelho de sua calça e desaparecido? Seria ele capaz?
   O hesitar. Pensava agora que aquela falta de reação era a prova de que ela nunca o amara. Os dois ali no restaurante preferido dela. Os dois ali bem vestidos para enquadrarem-se a ocasião. E ela, que usava um coque severo e carregava com orgulho o colar caro e extravagante que ele lhe dera, tinha de saber dos planos para a noite.
   Era impossível que não soubesse, era parte dela sempre saber. A hesitação fora apenas o tempo que precisou para pesar novamente as consequências de privar-se daquilo que disse tantas vezes sentir por ele, pensou. Mas como estava linda naquela noite. Como era sensual a maneira que ela dizia sussurrando: "Eu te amo". Como a vida era mais fácil quando ele acreditava.
   Os sinais! Os sinais eram como fantasmas ignorados por ele. Mas, afinal, houve um sinal que ele foi incapaz de ignorar: a marca de uma boca no seio esquerdo de sua mulher. A boca de outro. Naquela noite, naquela cama e no meio do ato conhecido como o mais íntimo entre duas pessoas, ele descobriu que sua esposa era uma estranha. Uma mulher que talvez desconhecesse por completo. Quis chorar, quis perguntar, quis agir como um imbecil violento. Nada fez. Parou, junto com todo o planeta que saiu do equilibrado movimento constante e antes eterno. Dormiu e sonhou. No sonho era esmagado por um gigante sem face, sinistramente sem face.
   Precisava saber mais. Qualquer um lhe diria para esquecer, porém era incapaz. Já sabia o suficiente, diriam. Já sabia demais! E ele discordaria com toda a certeza que só uma pessoa com seu orgulho ferido e seu amor roubado pode ter. Queria mais. Queria cada pequeno detalhe daquele ato odiável e asqueroso.
   Na intenção de ficar e vasculhar a casa em busca de algo que lhe contasse um pouco mais sobre o adultério, disse a mulher estar doente. E talvez não mentisse. Realmente sentia-se febril, inquieto, nauseado e monomaníaco. Andou de um lado para o outro, revirou gavetas, arrastou a mobília e arrancou os próprios cabelos com suas mãos machucadas de tanto socar as paredes, que pareciam lhe atravessar o caminho só para irritá-lo.
   Precisava se acalmar e sabia disso. Haviam várias garrafas de cerveja na geladeira e resolveu então embriagar-se. Ficou mais do que bêbado e um tanto mais calmo, entretanto essa quase calma logo o deixaria. Em meio ao caos que se tornara o quarto dos dois ele achou uma carta. Sim uma carta! Quão infantis e ridículos eles eram agindo como dois adolescentes apaixonados?
   A carta, que tinha como remetente o Outro, continha milhões, bilhões, quem sabe? de juras de amor que fizeram seu estômago, embebido em álcool, revirar. Ao menos o puto também pedia desculpas pela marca que deixara e a perguntava se ele, o corno, notara.
   Ali também haviam assuntos íntimos. Tão íntimos e particulares dela que nem mesmo ele, seu marido, tinha conhecimento. Sua sogra tinha câncer e ele não fazia ideia. Há quanto tempo se encontravam para que soubesse tanto, enquanto ele sabia tão pouco?
-Você trabalha demais.- ela disse uma vez com o desapego dos que sabem que o que foi dito será ignorado. E talvez, só talvez, isso fosse algum tipo de apelo; pensou.
   Nunca antes ela havia lhe pedido sua opinião e no entanto, algumas semanas após a afirmação dela ser quase  totalmente ignorada por ele próprio, ela lhe perguntou:
-O que acha do meu cabelo?- novamente o tom não cabia a frase. Era frio e desesperançado. Outro apelo? Ela havia cortado o cabelo e ele não tinha reparado.
-Ficou bom... Ficou sim...- ele nunca saberia mas já haviam se passado semanas desde que ela o cortara.
   Talvez a culpa fosse dele. Quem sabe? Talvez ele não desse a atenção que todos precisam. Mas seria isso justificativa? Não. Ele estava agindo como um fraco novamente. Ela sempre o fizera agir como um retardado carente de ajuda. E, na verdade, ele era. Precisava dela para apoiar suas decisões e ideias. Precisava dela para legitimar seus atos. Sempre precisou. E ela, do topo de toda sua arrogância, não só sabia como se aproveitava de sua fraqueza de espírito.
   Ah! Como ela se orgulhava de si mesma. Passava horas analisando cada pequeno detalhe perfeito de seu reflexo no espelho, tinha como passatempo corrigi-lo quando ele falava algo gramaticalmente incorreto e entrou em êxtase quando finalmente fora promovida a um cargo que lhe garantia um salário maior que o dele. O salário tornara-se uma espécie de confirmação incontestável do que ela sempre soube e nunca fez questão de esconder: era superior a ele.
   A mataria! Mataria os dois! Estava decidido. Nunca ele saberia como chegou a essa decisão, porém sabia que era isso que queria. Já podia sentir o sangue quente nas mãos e imaginava milhões de cenários e formas diferentes de fazer o que queria. Já tremia de excitação.
   Pegou a carta que o Outro a enviara e descobriu seu endereço. Com sorte eles estariam lá. Já era tarde e a essa hora, não fosse ela adúltera, estaria em casa com ele. No entanto esperou. Lhe daria uma hora para chegar e provar que o trânsito estava parado e que apenas se atrasara. Passadas duas horas sem sinal dela ele saiu de casa.
   Dirigiu como louco. Desrespeitou todos os sinais e ignorou todos os que o xingaram durante o caminho. Por pouco não morreu, mas eles não teriam essa sorte. Não teriam essa sorte. Murmurava ele um tanto ofegante de ódio e inquietação.
   Chegou. Parou o carro em frente ao que o endereço indicava ser o prédio que buscava. Olhou-se pelo retrovisor e viu o que era um retrato perfeito de um psicótico. Arrumou-se até que se parecesse novamente com o homem saudável que um dia foi e subiu. Ninguém o impediu ou sequer lhe dirigiu a palavra e mesmo assim tudo lhe era custoso demais. Tão confuso estava que sequer lembrava se sabia ou não o apartamento que procurava. Desceu e perguntou, enquanto explodia por dentro. Queria agir e queria que fosse logo.
   Estava obcecado. Repassava cada pequeno detalhe várias e várias vezes. Fora levado até ali pela raiva, pela mágoa, pelo desespero e pelo amor; maior culpado de todos. No entanto hesitava. Não faria nada. Parou de súbito em frente a porta do apartamento que tanto lhe custou encontrar, deu meia volta e se foi. Não sem antes ouvir o que reconheceu ser o gemido dela.
   Ao chegar em casa não fez questão de arrumar nada. Deixaria o caos exposto e permaneceria imóvel e mudo. Decidira-se a permitir que ela agisse ciente de tudo. Largá-lo ou não, escolha dela. Era indiferente. Acontece que depois de tanto acabou morrendo.
 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

L.

...e então saí. Saí para encontrar-me com alguém. Saí para transar com alguém. Saí porque meu corpo necessitava movimentar-se sobre terra estrangeira. Saí porque eu precisava ver gente desconhecida, do mesmo modo que às vezes precisava comer ou beber. Saí porque eu precisava de um instante agradável. Saí porque meu corpo precisava nutrir-se de orgasmos, ou talvez eu pensasse que esfregar minha pele contra a pele de um ser de minha espécie pudesse me curar.
    De fato encontrei pele. Pele jovem, lisa, fresca, macia, queimada de sol e marcada com símbolos de um sistema desconhecido e sem outro sentido além de enfeitar a pele já descrita. Perguntei-lhe o nome, sorri e fingi examiná-lo, como se eu já não o tivesse feito, mas é que essa atitude faz parte do código de conduta em situações como esta. Julio, Victor, Mauricio, Sérgio? Não importa. Ele respondeu e eu sorri e me apresentei enquanto suspirava aliviado porque seu nome em nada me lembrava o Outro.
   A conversa fluía, lenta, mas leve. Ele estuda em um colégio bom, melhor que o do Outro, mas há algo com aquele uniforme que simplesmente me atrai. Ele também aprecia músicos dos quais nunca ouvi falar, mas duvido que eu vá gostar tanto destes quanto gostei das músicas que o Outro me fez ouvir. Ele faz Taekwondo, o Outro faz Boxe.
   Conversa longa, silêncios sufocantes, rizadas nervosas sem explicação lógica... Choque de peles. Ele segurou meu braço e percebi estar sendo examinado por ele. Qual seria minha nota? Não importava, eu estava acima da média e isso era suficiente. "Na minha casa ou na sua?" Na dele, é claro.
   Transamos. O Outro nunca transaria tão bem assim, mas isso não tinha a menor importância. Nunca eu quereria alguém como eu o quero. 
   Levantei-me evitando qualquer contato com aquela pele indesejada, quase desprezível. Despedi-me de forma ríspida, que é como ajo sempre que me entendo, sempre que me acho. Me vesti correndo, disse que ligaria e fugi antes de pegar o número do telefone. 
   Ao chegar em casa fui direto tomar banho para esfolar minha pele exterminando assim qualquer vestígio da pele alheia e asquerosa. Quando não sobrou nada além de carne-viva deixei-me cair sobre o azulejo molhado e chorei. Chorei por saber exatamente o que eu queria. Chorei por saber, sem sombra de dúvida, que ele não me quer. Chorei porque naquele momento eu não era nada além da metade de um todo que me exclui.